segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Paternidade


Quem observa com certa frequência esse blog deve imaginar que o "dono" dele é um pensador da mortalidade, do trágico, da negação da vontade, do tenebroso, da finitude radical, da angústia fundamental. Todavia, creio que um estudo sério e aprofundado sobre a morte (não apenas entendida como o cessar das funções biológicas, mas a própria antecipação a essa possibilidade) traz consigo descobertas e experiências cruciais para a lida com a própria vida. É ela que confere à morte sua significância, sua importância e seu peso na existência. É por esse motivo que devo concordar em alto grau com a afirmação de André Comte-Sponville, ilustre filósofo contemporâneo (1952), atualmente professor na Universidade de Paris:

A morte é a regra, da qual a vida é a exceção. Nesse caso, porém, a regra só tem existência pela exceção que a desafia sem violá-la, que a confirma sem nela se perder. Aquilo que vivemos, a morte, que prevalecerá, não conseguiria abolir – por que a vivemos, por que teremos vivido eternamente. Todos os seres vivos morrem, e só eles, sem eles a morte não seria nada. Isso significa que é a vida que vale e que dá valor: mesmo a morte só tem importância por ela.1

É nesse mote de vida como "exceção" que devemos administrar o que nos resta de existência com certa responsabilidade visto que existir é ser carga para si mesmo. Se não se consegue simplesmente cuidar de si, como cuidar de outros, como se relacionar? E se esse outro for um filho? Se nesse espaço de existência que nos é "dado" suscitarmos um ser que "depende" boa parte da existência a quem o "criou"? A experiência - no meu caso - da paternidade é como que uma extração de mim mesmo em direção a um outro "de mim": "meu" filho. Há um pouco do meu ser nele. O que a biologia taxaria de genética, eu taxaria de transmissão do legado do meu ser. Apenas a convivência diária com uma criança e a observação atenta do seu desenvolvimento motor e cognitivo pode dar a dimensão do que direi agora. Apenas essa experiência adquirida de forma quase permanente é que nos faz ver que: - Meu Deus! há um pouco de mim nele. Observa-se esta interjeição supracitada em elementos basnate simples, mas que possuem um valor fenomenológico indescritível. Seja na maneira de olhar da criança, se está sendo canhoto ou destro, as posições de dormir que remontam às suas posições até hoje, certos "traços" de temperamento, o que não é de seu nele, o que é de outrem (como a mãe por exemplo), em suma, a própria diferença em si, os comentários de familiares ao afirmar que "ele é semelhante a você nesse sentido", as preferências visíveis em relação aos alimentos (se gosta mais de salgado como o pai ou se prefere doce como a mãe, por exemplo). E além disso, encarar o surreal de ter ciência que é um sujeito (mesmo que em formação) infinitamente outro em relação a você mesmo. É inevitável que a categoria de posse nos tome de assalto: - Ele é MEU filho. Devemos ter cuidado com esse discurso da posse que é peculiar na facilidade da liberdade egocêntrica, na liberdade auto-assegurada. Chamamos de meu pai, minha professora, meu amigo, minha casa, meu mundo, minha ideologia, meu país, minha verdade e MEU filho. Quando na verdade desde já sinto que ele não é meu, mesmo que usasse força física para prendê-lo junto à mim, ele nunca seria MEU. A categoria do TER, também não cabe aqui: - Você é casado? TEM filho? - Sim, TENHO. Usamos essas duas categorias de forma inadvertida, já que elas são mais sérias do que achamos que realmente são. Tenho e possuo objetos: tenho um carro, ele é meu carro. Com objetos mantemos experiências, com pessoas relações. Não há relação literal se um dos lados é dominado, se é possuído. Logo, genuinamente, eu não TENHO um filho, ele não é MEU filho. Mas ao mesmo tempo ele é "meu" e eu "tenho" um filho. A linguagem do dia-a-dia não precisa ser pensada sempre que a falamos, seria insuportável acessar sempre o âmago das palavras antes de proferí-las. Então, se as categorias de TER e PODER não são aplicáveis ao se tratar de um filho, qual seria? A categoria de Ser. Eu SOU de qualquer maneira meu filho. A biologia acerta brilhantemente com as descobertas genéticas. Não estamos aqui especulando ou dizendo palavras etéreas. É "fato" que haja o ser de um no outro. Uma ciência de progresso consensual já provou e o "cientificamente comprovado" é o nosso Deus. Há meu ser no ser do meu filho e é daí que se pode explicar a excessiva atenção que um pai (normal, não estou tratando de humanos que empacotam crianças e jogam em rios) desprende a seu filho. Eu estou nele e esse fato simplesmente me extrai de mim mesmo. Há traços meus sub-existindo nele e isso me im-pressiona, é objeto de pensamento profundo, de horas de meditação, de reflexão sobre responsabilidade, de re-significação de prioridades e acima de tudo, fonte de emoção no sentido genuíno da palavra: emovere; movimentar, deslocar. Estar emocionado diante de um filho é estar deslocado de si mesmo, é ser tomado de assalto por um ser tão frágil fisicamente quanto extremamente forte no que diz respeito às leis da natureza. Sua fragilidade possui tal força que observamos nitidamente os esforços que movem povos, cidades, tribos a terem de cuidar e proteger suas crias com toda a força. Amar um filho, para além do alter-ego e longe de qualquer narcisismo ingênuo, é "amar a si mesmo". É nesse caso que a máxima socrática entra em cena plausivelmente: Conhece-te a ti mesmo. Se em meu filho há um pouco de mim e eu me conheço de forma digna, logo saberei ao certo como dar o máximo de mim para a manutenção dessa vida que só pode ser taxada de especial. Emmanuel Lévinas, grande filósofo "francês" nos faz pensar um pouco na sua fala sobre o que "é" um filho contida na obra Le temps e l'autre:

Le fils en effet n'est pas simplement mon Œuvre, comme un poème ou comme un objet fabriqué; il n'est pas non plus ma proprieté. Ni les catégories du pouvoir, ni celles de l'avoir ne peuvent indiquer la relation avec l'enfant [...] Je n'ai pas mon enfant; je suis en quelque manière mon enfant [...] D'autre part, le fils n'est pas un événement quelconque que m'arrive, comme, par exemple, ma tristesse, mon épreuve ou ma souffrance. C'est un moi, c'est une persone. Enfin, l'alterité du fils n'est pas celle d'un alter ego. La paternité n'est pas une sympathie par laquelle je peux me mettre à la place du fils. C'est par mon être que je suis mon fils et non pas par la symphatie [...] La paternité n'est pas simplement un renouvellement du père dans le fils et sa confusion avec lui, elle est aussi l'exteriorité du père par rapport au fils, un exister pluraliste.

[Tradução Livre] O filho com efeito não é simplesmente minha obra, como um poema ou como um objeto fabricado; ele não é mais do que minha propriedade. Nem as categorias do poder, nem as do ter podem indicar a relação com a criança [...] eu não tenho minha criança, eu sou de qualquer modo minha criança [...] De outra parte, o filho não é um evento qualquer que me chega, como, por exemplo, minha tristeza, provação ou meu sofrimento. É um eu, é uma pessoa. Enfim, a alteridade do filho não é a de um alter ego. A paternidade não é uma simpatia pela qual eu posso me colocar no lugar do filho. É por meu ser que eu sou meu filho e não pela simpatia. A paternidade não é simplesmente uma renovação do pai no filho e sua confusão com ele, ela é também a exterioridade do pai por relação ao filho, um existir pluralista.



  • Um filho adiciona 15 gramas de areia na ampulheta da existência do pai.



1COMTE-SPONVILLE, André. A vida humana. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p.95.

3 comentários:

Mona Vie disse...

Hermosa foto, trate de leer pero fue imposile entender todo.
Deceo dejarte con esto.

BOAS VINDAS
Prezados Amigos,
É com profunda gratidão que lhes dou as boas-vindas à MonaVie para integrar nossa família em BOAS VINDAS
crescimento no Brasil! Desde o inicio da MonaVie, em 2005, tenho esperado pelo dia em que poderíamos trazer, a vocês, maravilhosos cidadãos brasileiros, este produto e esta oportunidade incríveis. Para mim, é como se fosse uma volta para casa. Nossas origens se encontram profundamente enraizadas em seu imenso país, e eu me sinto pessoalmente comprometido com o seu sucesso.
Quando lançamos o MonaVie nos Estados Unidos, milhares de pessoas começaram a se envolver durante a fase de pré-lançamento, porque elas percebiam uma oportunidade única daquela que, certamente, seria uma empresa grande e bem sucedida. Eu os incentivo a aproveitar a vantagem da oportunidade de pré-lançamento e começar a construir a sua organização hoje mesmo.
Mais uma vez, bem-vindos à MonaVie! Espero encontrá-los brevemente.
Calorosas saudações
Dallin A. Larsen
Fundador e Presidente

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Diogo disse...

alma!
realmente a paternidade deve ser uma experiencia impressionante
ate que ponto sera que a paternidade sustenta um para alem da finitude do sujeito?

alexsandra disse...

O texto de Raphel sobre paternidade e lindamente real, lírico sem ser romantilóide, evidencia como há uma série de detalhes da vida que não mensurados e tem uma dimensão absolutamente definitiva na existência, como pequenos termos... como a direção cotidiana do nosso olhar...